Música em conto - Polaroid

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Saudações nobres,

A Rainha foi desafiada por Lorde Guilherme do The Library, a escrever uma história tendo como roteiro base uma música.
Não ficou bem uma história, mas um conto. A música escolhida foi a Polaroid do Nenhum de Nós, lançada em 1994 no álbum Acústico ao Vivo¹.
Segundo informações, a música da banda brasileira é uma versão da canção Polaroid de Locura Ordinária², um dos maiores clássicos da carreira do roqueiro argentino Fito Páez. Segundo Fito Páez, a inspiração para a música foi o conto A Mulher Mais Linda da Cidade³ do escritor estadunidense Charles Bukowski.
Esse conto foi começado há pelo menos 2 anos e estava empacado. A inspiração já era a música do Nenhum de Nós mesmo - uma das minhas bandas preferidas -, e é daquela lista seleta de músicas que ouço sem parar.


Repasso o desafio aos blogs:
Mademoiselle Loves Books
Infinito em Branco
Paradise Books








Polaroid

Aquele ambiente à meia luz, várias vozes se misturando ao rock que tocava alto. Copos sobre as mesas de madeira escura sem forro, risos, mais vozes e mais bebidas. Olhava para os lados sem realmente prestar atenção em nada, mas aqueles cabelos loiros que dançavam loucamente me fizeram olhá-la. Mais impressionante que os cabelos eram os olhos claros que cintilavam sobrenaturalmente. Ela sim, se divertia! O sorriso escancarado de quem não teme se perder. A vi lançar na parede branca uma taça de vinho, uma enorme mancha se formando ali, distingui alguém dizer:
- Pare de desperdiçar Bourbon!
Ela apenas riu dele e saiu correndo para a rua. Não me lembro direito que dia era... Ou que horas da manhã eram, mas a segui mais por fascínio àqueles olhos do que por consciência.
O sol a fazia brilhar como se tivesse se banhado em prata, como uma fada talvez? Pela leveza de seus pés é possível, mal tocava o chão por onde passavam. Suas roupas pretas ressaltavam a pele pálida, a saia curta estava desfiando aqui e ali e o decote descia vertiginosamente deixando entrever mais pele do que o sensato. Parou do nada, e com uma das unhas enormes e vermelhas abriu um talho no rosto mármore. A linha rubra era gritante na luz solar, era quase um crime macular aquele rosto. Era um verdadeiro nirvana.
Olhou-me, e estendeu os braços. Chamou-me, e eu fui. Perdi-me de quem era por minutos, talvez uma eternidade. Com ela, nunca sabia aonde iria ou até quando ficaria acordado. Não é uma reclamação, creia-me. Ela sempre dava um jeito de me manter acordado...
Em um desses dias quaisquer – quem disse que tínhamos responsabilidades ou mesmo uma vida que não fosse essa? – Fazíamos as duas ou três árvores do quintal parecer um bosque, e corríamos feito loucos aos gritos, ela fugia e se afastava de mim, como se eu não passasse de um brinquedo. Mas ela me hipnotizava! Tão perfeita e mágica, o ar ao seu redor me deixava tonto e enlouquecia meus sentidos, da forma como uma mosca é atraída pelo mel.
Ela me oferecia maçãs no café da manhã ou seriam seus seios? Agora quando tento me recordar, as imagens são borradas e adocicadas. Os dias corriam soltos e estávamos na cama, da manhã à noite, como se nada mais existisse ou fosse necessário. Tenho certeza que me entenderia se pudesse ver aquele corpo, aqueles olhos...
Enfim, eis que o tempo corre e de alguma forma precisamos não viver, mas sobreviver. Imagino que meu parco senso fosse muito para a sua mente leve e pouco prática. Num desses derradeiros dias de devaneio, ela me encarou. Entreabriu a boca perfeita já sem batom e disse que me amava. Estático, ouvi, absorvi e me perdi. Perdi-me completamente de tudo que poderia ser capaz de me firmar a terra, perdi a pedra com a corrente, a âncora. Eu a seguiria até a morte. Assisti impotente quando ela se cortou de novo e de novo. Saiu correndo, gargalhando feito louca, deixando para trás uma trilha de sangue. Seus rodopios eram uma mistura macabra de branco e vermelho, nunca havia presenciado uma alma tão poderosa, fiquei cego com tamanha claridade.
Não sei por quanto tempo apaguei. Não sei nem porque acabei adormecido. Acredito que a força vinda dela era tão forte intensa, que não fui capaz de me manter de pé. Ela não era exatamente uma mulher normal.
Mas, afirmo-lhe com toda e absoluta certeza de que ela foi a minha fase mais preciosa. Por isso, ainda me agarro ao que sobrou dela, mesmo que sejam apenas espinhos e moscas e que eu não enxergue mais os seus olhos grandes e claros.





¹ Acústico ao Vivo - 1994
² Polaroid de Locura Ordinária - Letra
³ A Mulher Mais Linda da Cidade - Postado no blog O amor é um cão dos diabos
- A foto usada é da modelo americana Allison Elizabeth Harvard Wikipedia

1 comentários:

  1. Oi Ana,

    que desafio mega bacana! Obrigada pela indicação!! Amei mesmo! E a sua crônica ficou muito bacana! Poste mais textos seus por aqui!

    Beijos!
    Participe do Sorteio de Carnaval
    http://www.mademoisellelovesbooks.com/

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